[das imagens às coisas]
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Desde Marcel Duchamp, ao longo de toda a história da arte do século XX, discute-se o objeto, a autoria, a despersonalização do gesto criativo, o jogo conceitual e linguístico. A partir dos ready-mades, observa-se a recontextualização dos objetos cotidianos. Dentro dessas questões, pode-se abordar os objetos ou as videoinstalações desta exposição por um viés específico. A complementaridade entre a linguagem videográfica e os elementos físicos é uma característica comum às três obras expostas.
Ana Paula Lobo insere uma projeção em looping numa maquete. Sua obra O Nu descendo a escada realiza-se quando a imagem da mulher toca a matéria, ou seja, quando seus pés tocam delicadamente os degraus da escada da maquete. E ainda, a estratégia de repetição é ampliada num “eco visual”, pois a imagem da figura fragmenta-se em várias imagens da mesma mulher. Por outro lado, a representação do movimento é desacelerada, na medida em que, na edição, a velocidade é alterada e diminuída.
Marcelo Salum exibe um vídeo de um passeio por uma barreiro, local de onde retira-se material para a produção de cerâmica. A característica volátil da linguagem do vídeo é transportada para uma “construção” de gordura vegetal que se desmancha, durante o período da exposição, em contato com o calor e a luminosidade de uma lâmpada. Mitologias Marginais: Sítio Paciência constrói-se em processos, formaliza uma experiência multicamadas. Nesse trabalho, o fragmento torna-se um fluxo de um mesmo movimento: o movimento da imagem, o movimento do que é mostrado no vídeo, o movimento da luz da lâmpada, o movimento da gordura vegetal derretendo.
Caracterizo essas três obras como vídeo-coisas, pois ao separar-se signo e significado dos objetos, estes tornam-se coisas. Coisas porque remetem a pensamentos abstratos, ou seja, dão vida às relações do mundo. Em seus tamanhos reduzidos, as coisas chamam a atenção do olhar para o detalhe, a delicadeza. As imagens fazem parte das coisas e estabelecem um jogo entre aquilo que é material e imaterial. Por outro lado, as coisas são imagens, na medida em que possibilitam experiências sensórias de relações estéticas.
Essas obras abrem uma série de exposições e encontros com os artistas e curadores do grupo de pesquisa arte&meios tecnológicos (CNPq/FASM), que integra o mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina. Os membros do grupo são: Christine Mello (coordenação), Ana Paula Lobo, Ananda Carvalho, Carolina Toledo, Cláudio Bueno, Denise Agassi, Eduardo Salvino, Josy Panão, Lucas Bambozzi, Marcelo Salum, Mariana Shellard, Monique Allain, Nancy Betts e Paula Garcia. O grupo, formado em 2007, investiga os processos artísticos tendo em vista uma posição crítica e experimental no campo das mediações tecnológicas. Aqui a reflexão e a criação estreitam suas relações.
Ananda Carvalho
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