Ferramentas Pessoais

CURADORIA GRUPO 3

Variação

A história do desejo da captação da realidade é uma questão que percorre a representação visual da perspectiva renascentista às simulações da computação gráfica. Atualmente o impulso documental e a tendência de mostrar os fatos na emergência dos acontecimentos acentuam a lógica da imediaticidade. Mediadas, cada vez mais, pelos avanços dos meios tecnológicos que possibilitam a comunicação instantânea e móvel, a imagem verossímil, hiperreal, a transmissão ao vivo, os infográficos, a simultaneidade de diferentes visões da imagem parecem nos dar acesso à mais pura verdade, no instante mesmo em que ela acontece. A demasiada presença  desse corpus de imagens reforça a noção de um continuum massificante.

Na contramão da espetacularização, a arte é a interface crítica que possibilita reconfigurar a cena contemporânea buscando meios de suspender hábitos e modelos estabelecidos. Nesta exposição as artistas investigam uma variação de escritura que resista ao registro factual e permita experimentar procedimentos de subjetivização de seus objetos como novos modos de presença.

Em Íntimas Paisagens, Monique Allain ao adotar o plano fechado da visão e o looping descontextualiza a imagem possibilitando uma maior intimidade. O procedimento consiste em dilatar a temporalidade reunindo um tempo do instante, da sensorialidade com um tempo interno, do sentimento. Convida a experimentar a natureza sensível daquilo que está em suspensão - um presente ampliado.

Nos trabalhos de Paula Garcia a repetição do movimento é o dispositivo que cria o acontecimento. Sem a pretensão de dominar a situação, o processo é ao mesmo tempo conhecimento do que é colocado em funcionamento e aceitação da falta total de controle. Deste modo, a artista propõe uma desprogramação de processos finalizados por meio da incorporação do imprevisível como um componente poético.

Mariana Shellard parte de dois desenhos. Estes são mapeados em suas especificidades gráficas, codificados em aspectos sônicos e interpretados como indivíduos de uma população virtual, por meio de uma programação. A partir desta primeira escritura, o sistema de processo generativo e evolutivo funciona como um ativador que permite traduzir, em tempo real, as características visuais em infinitas possibilidades de criação de sons. Acaso e adaptação fazem parte desta construção em ação.

Os trabalhos apresentados não se reduzem a simplesmente pensar uma estética da ausência ou da desmaterialização, buscam muito mais a reversão de processos entrópicos como campo de imanência poética. A variação opõe-se ao pragmatismo industrial de viver a imagem como informação, em sua forma acabada.


Esta exposição faz parte da série Encontros com Arte que reúne artistas e curadores do grupo de pesquisa arte&meios tecnológicos (CNPq/FASM), que integra o mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina. Os membros do grupo são: Christine Mello (coordenação), Ana Paula Lobo, Ananda Carvalho, Carolina Toledo, Claudio Bueno, Denise Agassi, Eduardo Salvino, Josy Pavão, Lucas Bambozzi, Marcelo Salum, Mariana Shellard, Monique Allan, Nancy Betts e Paula Garcia. O grupo, formado em 2007, investiga os processos artísticos tendo em vista uma posição crítica e experimental no campo das mediações tecnológicas. Aqui a reflexão e a criação estreitam suas relações.

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