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Texto da curadora

[demasiada presença]


Durante as últimas décadas, as experiências artísticas com os meios tecnológicos ampliam a noção de presença ao incorporarem as redes de trocas de transmissão online e os dispositivos de comunicação móvel. Elas referem-se, com isso, a uma nova dimensão do sujeito no espaço. Traz-nos a dimensão de um espaço conectado a temporalidades simultâneas, cuja natureza presencial é transitória, híbrida, entre a presença física e a virtual, entre o lugar fixo e o móvel. Acentuam processos de interação entre diferentes espaços.

As experiências da arte nesse contexto promovem ações em espaços fluídos e intensificam o desejo de presença, de tomar contato.  Seus sentidos associam a vontade de estar conectado à coexistência da esfera pública-privada. Nesta exposição, a presença é processada de forma entrópica.  Por meio de jogos e circuitos midiáticos, ela produz desarticulações e estranhamento no modo como normalmente acessamos esses espaços cotidianos e imaginários.

 

Nessa direção, Subindo a Torre Eiffel, de Denise Agassi, hibridiza espaços produzidos pelas redes sociais e pelos álbuns virtuais (como os do images.google e do flickr), tornando visível a nossa presença em seus sistemas indexadores. Consiste na apropriação de banco de dados online e na criação de um algoritmo que localiza vídeos no Youtube em tempo real, por meio de um conjunto de tags que indicam a presença de turistas subindo a Torre Eiffel.

 

Lucas Bambozzi em Panorâmicas contidas produz imagens panorâmicas de ambientes da vida privada, obtidas com celular. Promove, com isso, um estreitamento de visão como que relacionado à vontade de dar contorno e demarcação a esses lugares ordinários, aqui compilados por meio de fragmentos.  Ao invés de alargar a nossa presença nesses lugares, neles nos coloca por meio de frestas, como possíveis aberturas para acessá-los.

 

Em Casa Aberta, Claudio Bueno questiona como os lugares se modificam a partir das transmissões online, tornando-os, muitas vezes, vazios e demasiadamente acessíveis. Numa espécie de consentimento perverso, promove interação do público com a sala da sua casa, permitindo que o outro, a partir de uma ligação de celular, acione a troca de canais de sua televisão e invada a sua privacidade. Por meio da intermitência entre o espaço pessoal e coletivo, realoca a presença do outro em seu espaço de intimidade.

 

As experiências aqui promovidas colocam em conflito o sujeito em ambientes domésticos, bem como o desejo de reconstituir a nossa presença nesses espaços. Se por um lado provocam o contato com o outro, mesmo que com um outro de certo modo ausente, por outro lado invocam a repetição, a contenção e a dificuldade de comunicação.

 

No século XXI, questionam o estatuto da presença ao mesmo tempo em que retomam o sujeito biográfico, reconfigurando sentido às imagens banais e  reconduzindo a novos patamares relações existentes entre memória pessoal e memória coletiva. Chamam atenção do excesso de presença na vida contemporânea e pedem, com isso, movimentos sutis, pequenos gestos, por meio de redundâncias, frestas e vazamentos do espaço privado ao público.

 

Essa exposição faz parte do Programa Encontros com Arte que reúne artistas e curadores do grupo de pesquisa arte&meios tecnológicos (CNPq/FASM), que integra o Mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina. Os membros do grupo são: Christine Mello (coordenação), Ana Paula Lobo, Ananda Carvalho, Carolina Toledo, Cláudio Bueno, Denise Agassi, Eduardo Salvino, Josy Panão, Lucas Bambozzi, Marcelo Salum, Mariana Shellard, Monique Allain, Nancy Betts e Paula Garcia. O grupo, formado em 2007, investiga os processos artísticos tendo em vista uma posição crítica e experimental no campo das mediações tecnológicas. Aqui a reflexão e a criação estreitam suas relações.

 

Christine Mello

 

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