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Texto do Curador

 

O artista e a cidade: algumas relações entre práticas artísticas e o espaço urbano.

“Cada cidadão tem vastas associações com alguma parte de sua cidade, e a imagem de cada um está impregnada de lembranças e significados.”
Kevin Lynch

A partir de uma pergunta – o que o lugar, ou a especificidade do espaço, agrega ao fazer artístico - a proposta é refletir, e trazer para a discussão, as relações entre a ação do artista e a cidade, uma vez que esta é, por excelência, o lugar da arte, e deve ser pensada como uma possibilidade de seu espaço definidor.
 

Impulsionada pelos processos de industrialização desenfreada, desde meados do século XIX, com ênfase em momentos específicos ao longo do século XX (guerras e suas conseqüências), a cidade tornar-se um espaço de pesquisa, realização e difusão da produção artística, o espaço urbano é um fator determinador dessa produção e das práticas artísticas que se realizam, sobre tudo a partir da década de 1960. Neste momento a cidade parece descolar-se da relação harmônica, anteriormente existente, e a produção artística volta-se frequentemente para observá-la e, ao olhar de fora deste contexto, questioná-la. Assim, discutir as transformações no campo da produção artística, em particular ao longo das últimas décadas, e o lugar a partir do qual ela é produzida, torna-se tarefa obrigatória para compreender a dimensão da atuação do artista, na contemporaneidade.
 

As ideias sobre o processo de discussão da relação do indivíduo com a cidade são, cada vez mais, presentes e tornam-se um meio de redimensionamento de uma ação, verdadeiramente comprometida com um caráter político, com um sentido estético alinhado com a realidade atual, mas agora mais comumente denominadas ‘intervenções artísticas’ de caráter urbano, bem como o mecanismo das residências artísticas, consolidam essa estratégia do artista contemporâneo, em participar de forma ativa da vida, extrapolando os limites iniciais de uma atuação artística em moldes tradicionais: o ateliê, a galeria, o museu.
 

A partir das ações desenvolvidas por cada um dos artistas presentes na exposição, podem ser estabelecidas relações que nos levam a um discurso articulado em torno da relação entre o artista e a cidade. A possibilidade de trazer para o espaço expositivo as leituras e recortes deste espaço urbano apresenta a oportunidade de retomar, por um lado um olhar dos artistas sobre a cidade e suas buscas de estabelecimento de relações que extrapolem a noção de representação, para lançarem-se no âmbito da apropriação de experiências do cotidiano.
 

Deslocar-se pela cidade olhando-a, mas, sobretudo vivendo-a em sua plenitude e diversidade de aspectos e possibilidades apresenta-se, para cada um dos presentes na mostra, como um veio a ser explorado, um espaço no qual mergulham, para de lá emergirem impregnados dos elementos constitutivos da urbanidade.
Fragmentos dessa realidade urbana, desse processo desregrado de urbanização convivem, agora, em um espaço arquitetonicamente articulado. Em cada um dos resultados de distintas práticas artísticas – perambulação, registro, coleta, documentação – encontramos o desejo de refletir sobre essa estrutura urbana na qual vivem e se deslocam.
 

Como ponto comum cada um dos artistas é movido pelo desejo de apropriar-se da cidade. Ela é seu objeto de estudo, de trabalho, seu espaço de criação, sua motivação de reflexão e crítica, mas ela é, sobretudo, seu objeto de desejo. Gigantesca e enigmática, pulsante e rizomática a metrópole se oferece aos olhos e sentidos ávidos, de cada um deles, por reconhecer-se em seus espaços, suas vias e suas articulações. Suas ações são formas de ocupação dos espaços, de perpetuação de deslocamentos.
 

Esse conjunto de artistas experimentou o convívio reflexivo ao lançar-se sobre a produção plástica, mas também sobre a produção crítica sobre ela elaborada. Integrantes do Grupo de Estudos “O artista e a Cidade”, do Curso de Mestrado da FASM, os artistas propuseram-se, durante a atuação do mesmo, a exercitar o olhar e a reflexão sobre relevantes e significativos artistas que, ao longo do século XX, ‘olharam’ a cidade com o desejo de enfrentá-la e ampliar sua significação.

Pensar a cidade, a partir da Arte Contemporânea, significa propor uma reflexão sobre as práticas artísticas e os aspectos de sua produção, em relação aos espaços e contextos em que esta se dá; demanda, também, um olhar sobre as implicações éticas, e o compromisso destas ações com a sociedade.
 

Arte urbana, arte e urbanismo, arte contemporânea: expressões que nos levam a pensar no processo de refletir sobre as alterações do modelo de pensamento modernista (e a questão do impositivo modernista) para outro, o contemporâneo, em que se propõe viver a experiência, para agir a partir dela.
 

A necessidade de o artista participar do processo de discussão da construção desta nova realidade urbana torna-se com o passar do tempo, e com maior ênfase ao longo do século XX, uma condição fundamental de sua existência, enquanto agente deste processo transformador.
 

Intervir no urbano consiste, assim, em ações artísticas elaboradas para apontar, ampliar, reforçar, denunciar, provocar, negar e criar situações, diferentemente da concepção de intervenção urbana como uma ação da ordem do urbanismo, que propõe transformações no tecido da cidade, em processos de redimensionamento de seus usos.
 

A cidade produz transformações culturais, uma permanente renovação cultural, em função dos diferentes e diversos valores, originários de suas populações. A cidade é o espaço do medo e do perigo, valores antigamente atribuídos à selva, lugar que hoje representa valores de pureza idílica, e que são admirados na programação da televisão.
O exercício de tentar aproximar imagens e articulações com o espaço urbano demonstra, claramente, como permanece visível e presente o interesse pelas ideias e provocações sobre as possibilidades e formas como a cultura urbana atual encontra-se certamente comprometida com ações e pensamentos artísticos contemporâneos.
 

Desta forma, a exposição integra um processo mais amplo de exercício reflexivo para buscar compreender como o artista utiliza suas estratégias para perceber a realidade de nossa metrópole, e para pensar suas ações sob a perspectiva da cidade imaginada, da cidade representada da cidade construída ou reconstruída, da cidade reconfigurada e mesmo da cidade desejada, para a qual se deve colaborar e atuar.

Marcos Moraes
Curador

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